Imponente, incrustada no alto de um penhasco, com vista para o mar e a cidade: assim se apresentava a casa de Zumbi. Pelos habitantes e visitantes da pequena vila, era admirada ao longe.
Para defini-la, pode-se dizer que era uma fortaleza camaleônica, conseguia não se repetir, não se sabe como. Tanto que, quando tentaram torná-la um cartão-postal, não deu certo: as fotografias estavam sempre obsoletas, e quem ia admirá-la pessoalmente não a reconhecia – os postais, raríssimos, logo viraram peças de colecionador. Certa vez, tentaram fazer de suas imagens um álbum de figurinha, por causa das várias versões, mas quando soube ficou tão vermelha de vergonha que assim permaneceu até desistirem da idéia. Era uma obra-tímida da arquitetura – e o arquiteto, sempre só, surgiu, projetou, construiu e sumiu. Sem dar explicações, apenas entregou a chave, feita de um material que diziam ser uma fina lasca de uma estrela de nêutrons, a quem a encomendara. O curioso nisso tudo é que a estrutura da mansão em si não se modificava, mas algo nela era sempre novo, inovador, inebriante. Inexplicável. Os céticos afirmavam ser tudo um simples jogo de luz e espelhos, mas, bem no fundo, ficavam intrigados, respiravam aquele ar de deixa-pra-lá e voltavam a contar moedas pra pensar em outra coisa.
Zumbi foi o primeiro e único habitante da morada. Ele a tinha como uma guardiã, uma cúmplice e uma amiga. Ambos se entendiam muito bem: ele sabia, quando acordava, ou pressentia, eu seu dia-a-dia, quando e como a casa se expressaria. Janelas abertas, feliz; meia luz, um pouco triste, ou nostálgica. Foram raras as vezes que as portas bateram, num acesso súbito (ou justificado) de raiva, mas as pazes aconteciam com uma porta fechada como uma piscadela de olho ou com uma flor trazida pelo vento que se infiltrou pela janela. E a recíproca era verdadeira: a mansão conhecia tão bem os hábitos de seu morador que, por exemplo, quando sonolento, ela abria passagens espontaneamente, ou se contorcia e arredondava nas quinas para não o machucar quando numa crise de destrambelhamento de Zumbi (ah, também era famoso por isso, especialmente na primavera).
Poucas e seletas pessoas a freqüentavam, Zumbi sabia bem quem convidar – e desconvidar. Gostava de dar festas, fazer reuniões com os amigos, promover saraus de música e poesia. Os jantares também eram famosos, sendo as noites preferidas daquele lar, quando se aromatizava com cheiros de todos os tipos vindos das delícias da cozinha.
Naquela noite fatídica, a concretude da mansão não conseguiu impedir o vulto que se infiltrou em sua estrutura. Era alguém que já havia estado lá e não poucas vezes. Alguém sorrateiro, que pisava disfarçadamente leve, mas arranhava o chão com uma inveja pontiaguda.
Zumbi, sentado na sua poltrona preferida, esperava. Não sabia direito o quê. Só estava certo de que sua arte marcial contaria com a ajuda de uma outra arma secreta: seus argumentos.
– Boa noite!
O diálogo que rompeu o silêncio daquela noite retumbaria, enigmático, por tempos de contradição.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário