segunda-feira, 23 de março de 2009

O Ladrão

O capuz negro dava um ar soturno à figura que se postava na porta da sala. O conjunto, coturno, calça preta, camiseta preta (um tanto quanto apertada) e finalmente, o manto negro, faria qualquer homem, por mais insignificante que fosse, aparentar-se perigoso e ameaçador, ou ainda permitiria entrada franca para uma festa a fantasia daquelas, camarote talvez. Mas a pessoa junto à entrada do cômodo não necessitaria de nenhum apetrecho especial para tornar-se perigoso. Era um ladrão, e do pior tipo. Seu olhar por si só traduzia o medo, seu sorriso ostentava a malícia, além é claro de um incisivo de ouro puro, 18. É do tipo de gente que faz o homem mais corajoso não pensar duas vezes, e ao simples vislumbre, com certeza atravessar a rua. Perito na arte de roubar, tinha como hobby a subtração de dados, mas também nas horas vagas aproveitava para furtar as cartas, as fichas, a carteira gorda dos jogadores, a sorte dos vencedores e a esperança dos perdedores. Com pouco de paciência surrupiava até mesmo a imparcialidade suspeita do crupiê. Encontrava-se ávido, faminto, pronto para saciar seu interminável capricho inescrupuloso.

-A llave. - Disse o ladrão com uma voz gutural, sotaque latino forçado.

-Que chave? - Perguntou Zumbi.

-Vim buscar la chave de la mansión, su tempo acabou, é hora de deixar este mundo, tu no és mas necessário. - Caberia aqui uma trilha sonora lúgubre, tocada por um mariachi depressivo, pra combinar.

-Quem é você e como entrou aqui? - Zumbi começou a traçar um plano de fuga em sua cabeça, era bom em conversar sobre um assunto e pensar noutro.

-Yo Conozco la mansión desde que era apenas um plano. La ajudei a construir, participei de la obra em segredo. Conozco todos los cantos, todas las entradas e salidas. Ahora precisamos de la llave, ella abre mas do que apenas la puerta de entrada. Onde está ella, vá falando, tengo pressa. - Nisso o larápio castelhano apresentou um punhal com cabo de ferro, adornado com esmeraldas e opalas, um pouco exagerado na verdade.

Zumbi notou que era realmente sério. Algo que estava além de seu conhecimento estava acontecendo. Trabalhou todos esses anos, sem saber direito para quem. Foi levado à mansão ainda jovem, e diariamente passava as informações que obtinha, em troca de uma rechonchuda conta bancária no fim do mês. Aquela casa era a única coisa que realmente importava para ele, sua única amiga, sua companheira. Agora iria lutar com alguém que conhecia todos os mistérios do lugar, um arrepio gelado subiu pela espinha, uma gota de suor escorreu por ela e congelou. Mas colocando seus pensamentos em fila indiana, sabia o que fazer.

Saiu correndo e atravessou a outra porta da sala que dava num longo corredor. Apesar de pálido e raquítico era um bom velocista. Perseguido pelo ladrão, voou até o último cômodo da mansão, entrou e trancou a porta. Um quarto que não estava nos planos do arquiteto, muito menos do ladrão. Zumbi a muito o construíra para sua segurança, apesar dos frequentes tremores que ocorriam na casa durante a construção: ela parecia sentir cócegas. Parede sólida, porta de ferro reforçado, feito para momentos como aquele. Na fechadura: a chave. Zumbi a mantinha na porta do quarto, no lado de dentro, retirando apenas para abrir a porta de entrada da mansão, em caso de visitas. Dentro apenas uma cama, um criado mudo, um alçapão. Em cima do pequeno móvel, uma garrafa com água e um comprimido de sonífero.

Zumbi tinha pouco tempo. Abriu a garrafa, tomou o comprimido e já ouvia o gatuno com habilidade cirúrgica mexendo na maçaneta, que apesar de especial acabaria cedo ou tarde sucumbindo ao trabalho ardil do bandido.

Esperava que em poucos minutos seus devaneios noturnos trouxessem uma resposta que salvaria sua vida.

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