segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Espera

Mais uma noite caiu. O breu chegou junto com a espera. Costumeira, já não mais uma surpresa: para a recepção estavam preparados blocos de papel, canetas e um roteiro pendurado na parede indicando como organizar pensamentos - por ordem alfabética, por ordem de chegada, ou bagunçados mesmo, mas com saliências para serem encaixados, como peças de um quebra-cabeça para montar imagens, ou com pequenos relevos arredondados em quadrados de cantos pontiagudos, como Lego, para montar formas. Sabia há tempos que os organizando e impondo autoridade não teria que armar arapucas para capturá-los e poderia, assim, cortar as pequenas asas. Eram pensamentos fugidios, às vezes até rebeldes e inconseqüentes (mas também sabia reconhecer com um sorriso de canto de boca quando um pensamento esperto conseguia escapar, feito aqueles espermatozóides loucos por um ovócito secundário - tinha alguns muito férteis, procriadores como coelhos, um orgulho). Alguns pensamentos também brotavam sorrateiramente, como ervas daninhas - esses eram regados por lágrimas -, e outros cresciam e trepavam e se emaranhavam como cipós, sendo tão engraçados que dava para se enroscar neles e se contorcer de rir, pois faziam cócegas. De fato, tinha uma mente muito produtiva, ao menos nisso o esterco e as minhocas ajudavam.

Naquela noite, um tilintar irritante de chuva na janela dava som ao silêncio (o típico bom para dormir, pra quem consegue). Mas dormir, no caso, não era o esperado. Tinha certeza que, por acaso ou não, a insônia chegaria, provocante, atraente e sedutora. Estava pronto para esperá-la e para fazer malabarismo com os pensamentos que a acompanhariam. Estava a postos. Preparado e lendo repetidamente o roteiro, entoado como um mantra.

Na manhã seguinte, não sabia se os pensamentos eram conscientes ou inconscientes: mais uma vez, a linha tênue entre a insônia e o sonho não conseguiu estabelecer limites, muito menos divisas ou fronteiras. Sabia que, na noite que passou, teve pensamentos muito estranhos.

Um comentário:

Unknown disse...

Simplesmente esplendoroso..
uma história do nada..q deixa apenas algumas explicações..algo duvidoso e tenebroso, porém, como diria meu amigo Jedu "divino"..

Vocês já estão no estilo Stephen King hein..muito bom